Antes de o redirecionamento chegar ao Judiciário, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional pretende consolidar a responsabilidade pessoal por via administrativa. A defesa nessa fase exige leitura técnica das alegações, reconstituição do quadro fático e oposição fundada nos limites fixados pelo STJ.
Análise técnica da notificação. Retorno em até 24 horas úteis.
O PARR, regulado pela Portaria PGFN nº 948/2017, é o instrumento administrativo pelo qual a Procuradoria pretende declarar — e produzir contra o gestor um título de cobrança — a responsabilidade pessoal por dívidas inscritas em Dívida Ativa da União. A notificação chega com narrativa pré-construída, ancorada em um conjunto recorrente de hipóteses fáticas e jurídicas. Conhecer cada uma delas é o primeiro passo para enxergar o que pode ser efetivamente atacado.
A PGFN sustenta que a empresa deixou de funcionar em seu domicílio fiscal sem comunicação aos órgãos competentes, invocando a presunção da Súmula 435 do STJ para legitimar o redirecionamento ao sócio-gerente.
Sob esta rubrica, a Procuradoria afirma a prática de atos com excesso de poderes ou em contrariedade ao contrato social ou à legislação tributária pelo administrador, equiparando o inadimplemento a uma infração imputável pessoalmente.
Aponta-se a movimentação de recursos entre as contas da pessoa jurídica e do sócio, ou a utilização de bens da empresa em proveito particular, como evidência de unidade patrimonial passível de desconsideração.
A PGFN identifica continuidade da atividade empresarial sob nova razão social, no mesmo endereço, com idêntico quadro de funcionários ou clientes, sustentando a transferência da responsabilidade tributária à empresa sucessora.
Afirma-se a existência de unidade de interesses, direção centralizada e compartilhamento de estruturas entre pessoas jurídicas distintas — o suficiente, segundo a Procuradoria, para a responsabilização solidária de todas elas.
A imputação atinge quem, ainda que sem registro formal, teria exercido poder de gestão durante o fato gerador ou no momento dos atos questionados — frequentemente alcançando sócios minoritários e administradores intermediários.
A leitura administrativa da PGFN é, com frequência, mais ambiciosa do que o que a jurisprudência consolidada efetivamente autoriza. Entre o discurso da notificação e os limites fixados pelo Superior Tribunal de Justiça há um espaço técnico considerável — e é nele que a defesa se constrói.
A confusão mais recorrente das notificações é tratar o não pagamento como conduta dolosa do administrador. O STJ é categórico: "o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente". A imputação do art. 135, III, do CTN exige a demonstração de ato concreto praticado com excesso de poderes ou em violação ao contrato/estatuto social — nunca a mera ausência de recolhimento.
A Súmula 435 estabelece presunção, não verdade indiscutível. A não localização da empresa no endereço cadastral pode decorrer de mudança de sede regular, paralisação temporária de atividades, eventos extrajurídicos relevantes e até falha cadastral perante a Junta Comercial ou a Receita. Demonstrada a inexistência efetiva da dissolução irregular, a presunção cai — e com ela cai todo o edifício de responsabilização construído sobre essa premissa.
O STJ delimitou em sede repetitiva que a responsabilidade pessoal exige exercício efetivo da gerência ao tempo do fato gerador ou no momento da dissolução irregular. Sócios que não exerciam gestão, ex-administradores que se retiraram antes do evento questionado e gestores que ingressaram após o débito não respondem pessoalmente — e a notificação que ignora essa baliza é tecnicamente impugnável.
O PARR frequentemente inverte a lógica probatória, exigindo que o notificado faça prova negativa de dissolução, de gerência ou de confusão patrimonial. O ônus, contudo, é da Fazenda Nacional: a ela compete demonstrar, com elementos concretos e individualizados, o ato infracional, o exercício da gerência no período relevante e a relação direta entre o gestor e o fato gerador. A defesa técnica recoloca esse ônus em seu devido lugar.
A jurisprudência do STJ é firme em afastar a tese de que sociedades pertencentes ao mesmo grupo respondam reciprocamente apenas por integrarem o mesmo conglomerado. A solidariedade do art. 124 do CTN exige interesse comum efetivo no fato gerador ou demonstração concreta de confusão patrimonial — não a mera identidade de quadro societário ou compartilhamento de estrutura administrativa.
Toda alegação de PARR repousa sobre uma premissa fática específica. A defesa eficaz não responde retoricamente — ela identifica essa premissa, isola seus elementos constitutivos e desfaz cirurgicamente as provas que a sustentam. A seguir, o desenho dessa lógica nas hipóteses mais frequentes.
Conduzimos a defesa do PARR em duas frentes coordenadas: a desconstrução da narrativa da PGFN, item a item, com base nas provas que a Procuradoria efetivamente produziu (e nas que omitiu); e a estruturação de elementos contrários — documentais, contábeis e societários — que afastem a imputação no plano administrativo. O objetivo não é apenas afastar a responsabilização presente, mas encerrar o procedimento de tal forma que ele não retorne na forma de redirecionamento da execução fiscal, preservando o patrimônio pessoal de quem assina pela empresa.
Felipe Sarkis
Sócio — Direito Tributário
Conduzo pessoalmente cada PARR. A natureza do procedimento — administrativa, mas com efeitos patrimoniais imediatos sobre o gestor — exige diálogo técnico denso com a Procuradoria, leitura precisa do material probatório e construção de teses ancoradas em jurisprudência consolidada do STJ. Não é trabalho que se delega a estrutura de massa.
O escritório atua em todo o território nacional, com especial frequência em casos envolvendo dissolução irregular, art. 135 do CTN, sucessão empresarial e tese de grupo econômico — incluindo recursos a tribunais superiores quando a controvérsia se desloca para a esfera judicial.
Encaminhe a notificação para análise. A avaliação inicial mapeia as alegações da PGFN, identifica os pontos vulneráveis e indica a viabilidade técnica da defesa — sem compromisso e sob sigilo profissional.